Entrevista: Christina Baum pesquisa o legado de Luzia Teresa a partir do acervo do Nuppo

Na carteira de identidade, nasceu em 1911, mas, na história de sua vida, contava ter nascido dois anos antes. A mulher de aparência franzina trabalhou na roça ainda criança e casou-se cedo, aos 25 anos. Teve como primeira casa uma zona rural próxima à cidade de Guarabira, no Brejo paraibano, e, já adulta, João Pessoa. Luzia Teresa dos Santos era um livro em forma de gente. Viveu contando histórias “de cabeça”. Era narradora da tradição oral nordestina.
Luzia Teresa teve seus contos registrados pelo jornalista, historiador, teatrólogo e folclorista Altimar Pimentel, responsável por reunir parte significativa de sua produção em cinco volumes. Três dessas obras foram publicadas, enquanto outros dois manuscritos permanecem inéditos e integram o acervo do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular (Nuppo) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O material reúne narrativas e entrevistas gravadas por Altimar Pimentel ao longo de sua pesquisa sobre a contadora de histórias.
Foi a partir desse acervo que a pesquisadora, tradutora e escritora Christina Baum desenvolveu parte de sua pesquisa de doutorado em Escrita Criativa, concluída em julho deste ano na Birkbeck, University of London. Brasileira radicada no Reino Unido, Christina é especialista em tradução literária entre o português e o inglês, com atuação nas áreas de literatura contemporânea, escrita criativa e tradução.
Ao longo da carreira, traduziu obras de autores como Julian Barnes, Uzodinma Iweala e Chimamanda Ngozi Adichie, além de colaborar com instituições como a BBC, o Channel 4, o The Guardian e o Instituto Moreira Salles. Em sua pesquisa, voltou-se ao legado de Luzia Teresa, investigando os registros preservados pelo Nuppo e transformando memórias em literatura.
O doutorado gerou a tese “The Lost Mother: On Writing the Novel and Researching the Life and Tales of Luzia Teresa dos Santos” (A mãe perdida: a escrita do romance e a pesquisa sobre a vida e as narrativas de Luzia Teresa dos Santos), título que o romance de Christina Baum também carrega. The Lost Mother inclui doze contos de Luzia Teresa traduzidos para o inglês.

Luzia Teresa dos Santos.
Proex: A senhora tem um extenso currículo no campo literário e nas traduções. O que, especificamente, a motivou a pesquisar a vida e a obra de Luiza Teresa dos Santos e como a sua proposta e Luiza Teresa dos Santos foram recebidas na Birkbeck, University of London?
Christina Baum: Quando resolvi fazer um doutorado em escrita criativa com componente prático, sabia que gostaria de escrever sobre dois temas: os contos de fadas e o Brasil. Em uma conversa com minha amiga e escritora Suzana Ventura, que, na época, fazia um doutorado na USP sobre contos de fadas, ela me apresentou a obra de Luzia Teresa dos Santos e me enviou por e-mail algumas de suas primeiras histórias, publicadas e editadas por Altimar Pimentel. Fiquei encantada! Apresentei a ideia do projeto à professora Dame Marina Warner, renomada escritora, historiadora cultural e mitógrafa britânica, conhecida por seus estudos sobre feminismo e contos de fadas. Ela aceitou orientar meu trabalho.

Proex: Ainda há poucas informações sobre Luiza Teresa dos Santos disponíveis ao público, tanto sobre a história de vida dela quanto sobre as histórias que ela contava. Como foi a pesquisa documental para o levantamento dos registros sobre Luiza Teresa dos Santos?
Christina Baum: O primeiro desafio foi o fato de ter iniciado o curso de doutorado durante a pandemia, em outubro de 2020. Só dois anos depois, pude ir à Paraíba para realizar a minha pesquisa de campo no Nuppo, na UFPB, e, na companhia da escritora e amiga Maria Valéria Rezende, visitar Guarabira e seus arredores. Vários acadêmicos, escritores, contadores de histórias e folcloristas me ajudaram na pesquisa: José Paulo Ribeiro, Marco Haurélio, Emilie Andrade, a professora Luciana Deplagne, a professora Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira e toda a equipe do Nuppo — Maria Celeste Liberalquino, Rejane Medeiros Borges, Maria Nathalia Mariano da Costa e Washington Cardoso. Todos me receberam de braços abertos.

Proex: No Nuppo, a senhora teve acesso aos inéditos de Luiza Teresa dos Santos organizados por Altimar Pimentel. Como a senhora chegou ao Núcleo e quais foram as contribuições do Núcleo para a sua pesquisa?
Christina Baum: Cheguei ao Núcleo por meio da contadora de histórias Emilie Andrade, que já havia estado no Nuppo, pouco antes da pandemia, pesquisando sobre Luzia Teresa e suas histórias para sua peça A Casa de Luzia. O material que encontrei no Nuppo foi fundamental para minha pesquisa.
“Descobri muito sobre a vida de Luzia Teresa e pude ler entrevistas e histórias inéditas, que me ajudaram muito na composição do meu romance, correspondente a 80% da tese, e do ensaio crítico, correspondente aos 20% restantes.”
Proex: Nos agradecimentos, a senhora mencionou que precisou traduzir o vocabulário e as expressões do Nordeste do Brasil para o português e do português para o inglês. Pode comentar este aspecto?
Christina Baum: Como observou o grande folclorista Câmara Cascudo, a riqueza do vocabulário nordestino é prova de uma língua viva, formada por heranças portuguesas, indígenas e africanas e marcada, sobretudo, pela criatividade do povo. Para uma carioca-inglesa como eu, os desafios foram grandes. Graças à ajuda de José Paulo Ribeiro e Marco Haurélio, bem como aos dicionários de Câmara Cascudo, pude “decifrar” palavras e expressões do vocabulário regional nordestino para, então, traduzi-las para o inglês britânico.
Proex: A área da tese é a de escrita criativa. O que, na sua pesquisa, a senhora identificou como marcas do estilo de Luiza Teresa dos Santos?

Christina Baum: No meu romance, incluí doze contos de Luiza Teresa dos Santos. Os contos foram “escolhidos” pela personagem principal, Maria Sutton, que também é a “tradutora” deles. Todas as histórias escolhidas refletem temas relevantes tanto para os personagens do romance quanto para a própria Luzia Teresa, como a busca por um lar, a procura por um filho perdido, a religiosidade. Além disso, como os contos foram transmitidos oralmente, apresentam algumas incoerências e repetições que precisei alterar. Também tomei certas liberdades, uma vez que estava escrevendo um romance, e não um estudo antropológico, por exemplo. Uma das marcas que mais me surpreendeu nos contos foi a maneira como Luzia Teresa termina suas histórias: “Pronto”, “Terminou a história” ou “Fim da história.”
Texto: Comunicação-Proex
