Projeto de extensão atua no atendimento a animais silvestres e pets não convencionais na Paraíba

quinta-feira, 28 de maio de 2026
atualizado em quinta-feira, 2 de julho de 2026
Projeto Medicina de Animais Silvestres e Pets Não Convencionais, em parceria com a equipe do Parque Zoobotânico Arruda Câmara.

Quando o coelho Frederico precisou de atendimento especializado, Letícia Pereira não teve dúvidas em quem procurar: o projeto “Medicina de Animais Silvestres e Pets Não Convencionais”, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Desde 2023, ela leva seus pets para acompanhamento no Hospital Veterinário da instituição e destaca o cuidado da equipe durante todo o processo. “Foi uma experiência muito positiva pra mim, principalmente por ser um atendimento voltado para animais que, muitas vezes, não têm tanta assistência especializada”, relata. 

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil (IPB), o Brasil já possui mais de 160 milhões de animais de estimação, incluindo aves, répteis e pequenos mamíferos. Os chamados pets não convencionais já representam cerca de 39% desse total. Esse cenário evidencia uma demanda cada vez maior por atendimento veterinário especializado, especialmente para espécies que possuem necessidades específicas de manejo e saúde. 

Criado em 2019, o projeto de extensão da UFPB atua no campus de Areia e realiza, em média, entre 250 e 300 atendimentos por ano, recebendo animais do Brejo Paraibano, da Região Metropolitana de Campina Grande, da Região Metropolitana de João Pessoa e até de estados vizinhos. 

As atividades são desenvolvidas principalmente no Hospital Veterinário do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da universidade. Lá são realizados atendimentos clínicos, cirúrgicos e exames diagnósticos, em ambulatórios equipados e no centro cirúrgico da unidade. O projeto também mantém parceria com o Centro de Triagem de Animais Silvestres da Paraíba, localizado no município de Cabedelo (PB), colaborando na reabilitação de animais silvestres resgatados e contribuindo para que, sempre que possível, esses indivíduos possam ser devolvidos ao seu habitat natural. 

Hospital Veterinário do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFPB localizado no Campus II em Areia (PB)

Segundo a bolsista Smirna Bessa, estudante de medicina veterinária, a iniciativa nasceu da necessidade de organizar atendimentos que antes aconteciam de forma isolada. “O projeto surgiu de fato em 2019, antes disso os atendimentos a pets não convencionais eram espaçados, ocorrências distintas. Em 2019 tivemos a estruturação com extensionistas e uma base para a organização que temos hoje.” 

O projeto atende tanto animais silvestres de vida livre quanto pets não convencionais. De acordo com o extensionista Danilo Jefferson Rodrigues, o objetivo é garantir um cuidado completo e adequado a cada espécie. “Nosso projeto baseia-se no atendimento pets não convencionais, porquinho da índia, coelhos, papagaios, calopsitas etc. e animais de vida livre advindos de resgate principalmente. Nosso trabalho é restaurar a integridade física e fisiológica desses animais da melhor maneira possível, dar-lhes um tratamento adequado quando necessário.” 

No caso dos animais silvestres, o foco é a reabilitação para que possam retornar ao seu habitat natural. Já para os pets não convencionais, o trabalho inclui também a orientação aos tutores. “Em caso de pets não convencionais, uma melhora no manejo desses animais, indicações aos tutores do que podem fazer para melhorar a qualidade de vida dos seus companheiros”, explica o estudante. 

Acesso da população e impacto social 

Um dos pontos mais importantes do projeto é o acesso da população aos serviços. O atendimento é aberto ao público e pode ser solicitado por meio das redes sociais do projeto, como o perfil @vetsilvestresufpbext e WhatsApp, ou diretamente no Hospital Veterinário da UFPB, especialmente em casos de emergência ou de animais resgatados. 

Além do agendamento, a equipe também oferece orientações iniciais à distância, auxiliando a população em situações urgentes. “Pelas redes sociais, dependendo da situação, damos orientações iniciais, como ‘mantenha aquecido’, ou ‘não tente medicar o animal, se encaminha para o HUV o mais rápido possível’, nunca uma consulta, apenas essas orientações básicas para que quem estiver entrando em contato mantenha a calma”, destacam as extensionistas Lorena Trigueiro e Ana Júlia Melo. 

O projeto também se destaca por buscar tornar o atendimento acessível. Não há cobrança pela mão de obra, sendo necessário, em alguns casos, apenas o custeio de materiais utilizados nos procedimentos. Isso amplia o acesso ao serviço, especialmente para tutores que não teriam condições de arcar com atendimentos especializados fora da universidade. 

O projeto também atua na conscientização ambiental e na quebra de estigmas em relação a algumas espécies. “Trabalhamos com a quebra desses preconceitos. Atualmente, usamos principalmente as redes sociais como forma de quebrar esses estigmas negativos ao redor de inúmeras espécies, cobras, corujas, aracnídeos. Todos precisam ser entendidos como são, seres essenciais para o equilíbrio da fauna, cada um cumprindo seu papel”, destaca Danilo. 

Formação acadêmica e experiência prática 

A iniciativa também tem um papel essencial na formação dos estudantes de medicina veterinária. A equipe é composta principalmente por graduandos, que atuam diretamente na rotina de atendimentos, sempre sob supervisão de professores e profissionais. 

“Sob orientação do nosso coordenador, Dr. Rafael Lima, são responsáveis pelos manejos dos animais, medicação, limpeza de feridas, alimentação, pesagens e afins”, explica Smirna. Os estudantes participam ainda de plantões, exames e acompanhamentos clínicos, tendo contato direto com diferentes espécies e situações. 

Além de números e atendimentos, o projeto revela um trabalho que envolve cuidado, responsabilidade e empatia. Ao lidar com animais que muitas vezes chegam feridos, debilitados ou vítimas de maus-tratos, os estudantes e profissionais envolvidos constroem, na prática, uma relação de respeito com a vida em todas as suas formas. Ao mesmo tempo, o contato com tutores e com a comunidade reforça a importância da informação e do cuidado consciente, mostrando que preservar a fauna também passa por pequenas atitudes no dia a dia. 

Texto: Adrielly Torres