Inserção curricular da extensão fortalece formação acadêmica e compromisso social

Olgamir Amância Ferreira nasceu em Cavalcante (GO), mas se mudou para Planaltina, em Brasília, com a família aos seis anos de idade. Graduada em Matemática, mestre e doutora em Educação, em sua trajetória já foi diretora do Sindicato de Professores e presidente do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (Forproex) e decana de extensão na universidade na qual trabalha. Professora na Faculdade UnB Planaltina, é docente do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDH) e líder do grupo de pesquisa Insurgências, laboratório de investigações em extensão e direitos humanos.
Em atividade de estágio pós-doutoral no Centro de Educação (CE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Olgamir Amância já manteve vínculos com o estado muito antes dessa experiência. “Comecei a minha graduação na Engenharia Química, no campus de Campina Grande. Infelizmente, por razões outras, acabei deixando o curso e voltei para Brasília”.
No dia 5 de maio, a professora ministrou a palestra Inserção curricular pra quê? A extensão entre o aprender e o transformar, da graduação à pós-graduação, a convite da Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da UFPB. Nesta entrevista, com recortes de sua exposição, a professora aponta os desafios e perspectivas da inserção curricular da extensão no ensino superior, destaca a importância da integração entre ensino, pesquisa e extensão para a construção de uma universidade mais democrática, conectada à sociedade e comprometida com a transformação social.
PROEX/UFPB: Professora, qual é o principal objetivo da inserção curricular da extensão?
Olgamir Amância: A inserção curricular da extensão tem como objetivo garantir a excelência acadêmica. Mas não qualquer excelência, uma excelência comprometida com a transformação da realidade. Estamos falando de um processo formativo que integra teoria e prática de forma indissociável, desde a graduação até a pós-graduação, conectando a universidade com as demandas da sociedade.
PROEX/UFPB: Por que esse debate ganhou força nos últimos anos?
Olgamir Amância: Esse movimento se intensifica especialmente a partir da Resolução nº 7 de 2018, do Conselho Nacional de Educação, que estabelece que pelo menos 10% da carga horária dos cursos de graduação deve ser composta por atividades de extensão. Isso provocou uma mudança significativa nas instituições, exigindo a revisão dos currículos e ampliando a compreensão da extensão como dimensão formativa.
PROEX/UFPB: O que muda, na prática, com a inserção da extensão nos currículos?
Olgamir Amância: Muda tudo. Não se trata apenas de adicionar atividades, mas de transformar a universidade como um todo, da gestão às metodologias de ensino. A extensão integrada ao currículo reorganiza também a pesquisa e exige novas formas de pensar a formação acadêmica, mais conectadas com os territórios e com a realidade social.

PROEX/UFPB: Como a senhora define excelência acadêmica nesse contexto?
Olgamir Amância: A ideia de excelência muda ao longo do tempo. Hoje, ela está diretamente ligada à capacidade da universidade de dialogar com a sociedade, enfrentar desigualdades e contribuir para o desenvolvimento social. Uma universidade de excelência é aquela que forma profissionais tecnicamente qualificados, mas também comprometidos ética e socialmente.
“A extensão é o elo que conecta a universidade à sociedade de forma dialógica. Não é uma ação unilateral, mas uma troca de saberes.”
PROEX/UFPB: Qual é o papel da extensão nesse novo modelo de universidade?
Olgamir Amância: A extensão é o elo que conecta a universidade à sociedade de forma dialógica. Não é uma ação unilateral, mas uma troca de saberes. Ela promove o encontro entre o conhecimento acadêmico e os saberes populares, contribuindo para a produção de novos conhecimentos e para a transformação social.
PROEX/UFPB: Ainda há resistência a esse processo? Por quê?
Olgamir Amância: Sim, há resistências. Muitas vezes por desconhecimento, mas também porque estamos falando de mudanças profundas, que mexem com estruturas consolidadas. O currículo é um espaço de poder dentro da universidade, então reformulá-lo implica disputas sobre que tipo de formação queremos e que sociedade desejamos construir.
“O currículo é um espaço de poder dentro da universidade, então reformulá-lo implica disputas sobre que tipo de formação queremos e que sociedade desejamos construir.”
PROEX/UFPB: A inserção curricular é o mesmo que curricularização ou creditação da extensão?
Olgamir Amância: Não. A creditação foi um primeiro avanço, ao permitir contabilizar a extensão como carga horária. A curricularização trouxe a extensão para dentro do currículo. Mas a inserção curricular vai além: ela propõe repensar completamente o currículo, reorganizando-o a partir da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
PROEX/UFPB: Que desafios esse processo impõe às universidades?
Olgamir Amância: O principal desafio é construir um novo paradigma de universidade. Isso envolve rever metodologias, fortalecer a interdisciplinaridade e valorizar o protagonismo estudantil. Também exige reconhecer os saberes produzidos fora da academia e promover uma formação mais humana, crítica e integrada.
PROEX/UFPB: Que universidade esse modelo busca construir?
Olgamir Amância: Uma universidade democrática, inclusiva e socialmente comprometida. Uma universidade que não apenas produz conhecimento, mas que o coloca a serviço da sociedade. Que forma profissionais competentes, mas também sensíveis às realidades sociais e capazes de atuar na transformação do mundo.
Edição: Comunicação-Proex.
