“Segredos Peçonhentos” leva a extensão do currículo para a comunidade

“Lecionar é minha vida, mas a extensão foi uma opção consciente para tornar o ensino cada vez voltado para uma formação socialmente referenciada e humanizada”. A declaração é da professora Cristine Hirsch, do Departamento de Ciências Biomédicas (DCB) do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Desde 2022, a inserção curricular da extensão foi adotada na disciplina de Animais Peçonhentos, ministrada pela docente.
Ofertada em duas modalidades pelo DCB, com 30 horas cada, a versão com creditação da extensão (código DFPT00222) incorpora diretamente as atividades extensionistas ao currículo, enquanto a disciplina do código GDFPT0131 oferece a possibilidade de participação voluntária em ações de extensão, como evento no Fluex.

Desde sua criação, o projeto vem sendo desenvolvido em diferentes formatos e com diversos públicos. Inicialmente realizado de forma remota, durante a pandemia de Covid-19, o trabalho envolveu agentes comunitários de saúde, evidenciando a relevância do tema para a formação no serviço.
Nos anos seguintes, as ações passaram a ocorrer presencialmente, alcançando agricultores familiares, trabalhadores terceirizados da UFPB e profissionais da atenção básica à saúde. As atividades incluem rodas de conversa e exposições educativas, promovendo troca de saberes e valorização dos participantes.
A partir de 2025, o projeto incorporou a “Barraca dos Peçonhentos”, uma estratégia interativa de educação em saúde que permite a aproximação direta da comunidade com o tema. No mesmo período, foi criado o perfil digital “Segredos Peçonhentos”, ampliando o alcance das ações e inspirando a aprovação do projeto Segredos Peçonhentos: conhecimento na palma da mão no edital Probex (PJ 1369-2025).
Rayssa Nunes, do curso de Ciências Biológicas, participou do início das discussões e do planejamento para desenvolver as atividades e aproximar o conhecimento científico da comunidade. Entre as estratégias estava a comunicação via redes sociais digitais. “Todo o trabalho foi construído em grupo, desde a escolha do nome do projeto, organização das ações e a ideia de criar o Instagram, que surgiu com o objetivo de ampliar o alcance do projeto e divulgar informações sobre animais peçonhentos de uma forma educativa e mais acessível”, relembra.
Na disciplina, metade do tempo é dedicada a aulas, oficinas e visitas técnicas, como ao Centro de Informação e Assistência Toxicológica de João Pessoa (CIATOX), enquanto as demais quinze horas são voltadas ao planejamento e execução de ações junto à comunidade.
A adesão dos estudantes às atividades extensionistas tem sido significativa, com ampla participação nas ações propostas. Segundo a docente, os relatos evidenciam impactos formativos importantes, como o desenvolvimento de habilidades, o fortalecimento de conhecimentos e a ampliação da consciência social.
“Muitos estudantes relatam transformações pessoais, como a superação de medos e o entendimento do seu papel social enquanto cidadãos e futuros profissionais”, destaca Cristine Hirsch.
A avaliação da disciplina contempla tanto o desempenho nas atividades teóricas quanto o envolvimento nas ações de extensão, incluindo a elaboração de relatórios individuais.
Entre mitos e conhecimento: o diálogo com a comunidade

Discente de Biomedicina, Luiz Antônio participou de uma ação com agricultores da Feira Agroecológica EcoVárzea, realizada na UFPB às sextas-feiras. O estudante ressalta que a experiência no Segredos Peçonhentos se diferencia de outras vivências anteriores dele, especialmente pela abordagem adotada e pelo conteúdo. “É uma temática chamativa, que desperta o interesse de todos que participam. Além disso, a professora conduz o projeto de forma muito acolhedora, o que faz com que os extensionistas se sintam à vontade para desenvolver as atividades”, relata.
Para Luiz Antônio, um dos principais destaques das ações presenciais está no uso de peças e amostras de animais provenientes de acervos da UFPB.
“Quando as pessoas veem estudantes apresentando banners, nem sempre se aproximam. Mas, quando levamos amostras de cobras, aranhas e outros animais, isso desperta curiosidade e aproxima o público, abrindo espaço para o diálogo”, explica.
A Barraca dos Peçonhentos já foi levada à orla de João Pessoa, ao Parque da Lagoa, no Centro, e a um shopping da capital. Dados do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) mostram que na Paraíba, entre 2022 e 2024, o número de acidentes com animais peçonhentos notificados tem aumentado. No período, 72% das ocorrências foram escorpiões, outros 2.952 envolveram picadas de abelhas, 1.863 de serpentes, entre outros animais.

Os relatos dos visitantes são carregados de superstições que os extensionistas e os panfletos do projeto prontamente esclarecem. Os relatórios das ações exemplificam os cenários encontrados pela equipe. “Eu sempre achei que se uma cobra pica, a primeira coisa a fazer é chupar o veneno pra ele não se espalhar”, conta um morador. Para os extensionistas terem contato direto com as pessoas e serem transmissores de conhecimento é gratificante. “É a ciência saindo das instâncias acadêmicas e retornando à sociedade, aquela a que a ciência deve, sobretudo, servir”, ressalta um deles.
Em 2026 já aconteceram duas Barracas dos Peçonhentos. A partir de maio, com a aposentadoria da professora Cristine Hirsch, o Probex Segredos Peçonhentos segue coordenado pelo servidor técnico-administrativo do DCB, Everton Paredes, com as colaborações de Maria Talita, também TAE do DCB, e com os docentes Márcio Bernardino da Silva (DSE/CCEN) e Hemerson Iury Ferreira Magalhães (DCF/CCS). O projeto continua ativo nas redes sociais e está previsto mais um evento ainda este ano.
Texto: Marcella Machado
Fotos: Divulgação do projeto
