Trauma e discriminação contra autistas

O trauma psicológico pode estar relacionado a experiências de discriminação, bullying e violência vividas por pessoas autistas. Essas situações podem acontecer na família, na escola, na universidade, no trabalho, nos serviços de saúde e em outros espaços sociais.
No artigo de Cleary e colaboradores, publicado em 2023, as autoras analisam como a discriminação, o preconceito e o mascaramento autista podem contribuir para o sofrimento psicológico. O estudo também apresenta formas de prevenir esses danos e promover ambientes mais seguros e inclusivos.
Como a discriminação pode causar trauma?
A discriminação acontece quando uma pessoa recebe um tratamento injusto por causa de alguma característica. Ela pode ser direta, como negar uma oportunidade a alguém por ser autista, ou indireta, como não oferecer as adaptações necessárias para que essa pessoa participe de uma atividade.
Pessoas autistas podem enfrentar rejeição, humilhação, bullying, violência física ou verbal, ameaças e assédio. Também podem sofrer discriminação quando outras pessoas interpretam suas características como sinais de incapacidade ou falta de interesse. Essas experiências podem causar sofrimento emocional e, em algumas situações, contribuir para o desenvolvimento de traumas psicológicos. Os efeitos variam de pessoa para pessoa e podem aparecer logo após a situação ou algum tempo depois.
Entre as possíveis consequências estão:
- Lembranças dolorosas e pensamentos angustiantes;
- Ansiedade e depressão;
- Isolamento e dificuldades nas relações sociais;
- Perda de interesse em atividades;
- Redução da autoestima e sensação de impotência;
- Dificuldades para estudar, trabalhar ou realizar atividades cotidianas.
Experiências difíceis durante a infância também podem afetar o desenvolvimento e a saúde mental ao longo da vida. Na idade adulta, situações repetidas de exclusão podem aumentar o sofrimento. É importante destacar que nem toda pessoa autista que enfrenta discriminação desenvolverá um trauma psicológico. Isso depende de diferentes fatores, como a situação vivida, seus efeitos e o apoio disponível.
Em quais espaços ocorre a discriminação?
A discriminação pode acontecer em diferentes ambientes e prejudicar a segurança, a saúde e a participação social das pessoas autistas. Nos serviços de saúde, por exemplo, profissionais podem desconhecer as necessidades dessas pessoas, desconsiderar suas dificuldades de comunicação, fazer julgamentos negativos ou recusar atendimento. Experiências negativas também podem levar algumas pessoas a evitarem consultas e outros serviços de saúde.
Na educação, estudantes podem enfrentar bullying, exclusão de atividades, falta de adaptações e outros tratamentos injustos. Essas barreiras podem dificultar a permanência na universidade e a participação em estágios e pesquisas. No trabalho, pessoas autistas podem ser prejudicadas em entrevistas por não corresponderem às expectativas sociais de pessoas não autistas. Também podem enfrentar assédio, bullying e falta de apoio no ambiente profissional.
A discriminação também pode ocorrer nas relações sociais, por meio de rejeição, isolamento, ameaças e violência, prejudicando o sentimento de segurança e pertencimento. Nos meios de comunicação, representações negativas podem reforçar preconceitos ao apresentar pessoas autistas como incapazes, indefesas ou violentas.
Essas experiências podem acontecer em diferentes momentos da vida. Quando a discriminação ocorre em vários ambientes, a pessoa pode ter dificuldade para encontrar espaços onde se sinta respeitada e protegida.
Mascaramento autista: uma tentativa de evitar o preconceito
O masking, também chamado de mascaramento autista, consiste em esconder ou disfarçar características do autismo para demonstrar comportamentos considerados socialmente aceitos. Saiba mais sobre o mascaramento autista. Uma pessoa autista pode, por exemplo, forçar o contato visual, controlar movimentos repetitivos, imitar o comportamento de outras pessoas ou esconder o desconforto para evitar julgamentos.
O mascaramento pode ser consciente ou acontecer sem que a pessoa perceba completamente o esforço envolvido. Muitas pessoas autistas recorrem a essa estratégia para tentar evitar rejeição, discriminação e bullying, além de buscar maior segurança e aceitação. Por isso, o mascaramento não deve ser visto apenas como uma escolha individual. Ele também pode ser uma resposta à pressão social para que pessoas autistas escondam suas características.
Manter esse esforço por muito tempo pode contribuir para o cansaço físico e emocional, a ansiedade, a depressão e a dificuldade de aceitar as próprias características. A pessoa também pode sentir que não consegue ser quem realmente é e ter dificuldade para estabelecer limites nas relações. Em alguns casos, esse esforço prolongado pode contribuir para o esgotamento autista, conhecido como burnout autista.
O mascaramento prolongado pode aumentar o sofrimento e afetar a qualidade de vida. No entanto, deixar de esconder essas características também pode ser difícil quando a pessoa continua exposta ao preconceito. A prevenção do trauma não deve depender de a pessoa autista aprender a esconder melhor suas características. É necessário transformar os ambientes que favorecem a discriminação e garantir condições para que cada pessoa possa se expressar com segurança.
Estigma e autoestigma: quando o preconceito afeta a forma de se ver
O estigma está relacionado às ideias negativas e aos preconceitos associados a uma característica de uma pessoa, como o autismo. Essas ideias podem levar outras pessoas a desvalorizarem, excluir ou tratar pessoas autistas de forma injusta.
Quando a própria pessoa passa a acreditar nesses julgamentos negativos, pode desenvolver o chamado autoestigma. Isso pode acontecer, por exemplo, quando sente vergonha de ser autista, considera suas características inadequadas ou acredita que precisa escondê-las para ser aceita. O mascaramento pode contribuir para esse processo, principalmente quando a pessoa passa muito tempo tentando atender às expectativas dos outros.
Para enfrentar esse problema, é importante reconhecer que diferenças na comunicação, no comportamento e nas formas de interação não justificam a discriminação. Pessoas autistas têm direito ao respeito, à participação social e ao apoio de que precisam.
Prevenir o trauma também significa prevenir a discriminação
Cleary e colaboradores (2023) apresentam caminhos para promover mudanças, como combater o preconceito, construir ambientes inclusivos, capacitar profissionais e instituições, oferecer apoio adequado e respeitar os limites e as características de cada pessoa. Prevenir o trauma e a discriminação exige ouvir as pessoas autistas, respeitar suas experiências e transformar as condições sociais que favorecem o preconceito, o isolamento e o mascaramento causado pela pressão social.
Fonte
O presente conteúdo foi adaptado para a Linguagem Simples por GRALHA, inteligência artificial criada por Marcia Ditzel Goulart, sob organização de Kátia Diniz, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da UFPB e integrante do Coletivo Autista da UFPB, com base no artigo científico de Cleary e colaboradores, publicado em 2023 na revista Issues in Mental Health Nursing. A versão completa está disponível no site do Coletivo Autista da UFPB: ufpb.br/cau.
