Inclusão de pessoas autistas nos espaços religiosos envolve acessibilidade e comunicação 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026
atualizado em quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A participação de pessoas autistas em espaços religiosos pode envolver barreiras relacionadas ao ambiente, à comunicação e à forma como determinados comportamentos são compreendidos. A questão é discutida pela pesquisadora Kátia Diniz, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em uma reflexão sobre a presença de pessoas autistas em diferentes comunidades religiosas. 

Em cultos, giras, missas e outros espaços de vivência religiosa, pessoas autistas conseguem participar das atividades e permanecer nesses ambientes? Para Kátia Diniz, as dificuldades podem estar relacionadas tanto às características físicas dos espaços quanto às formas de comunicação e interação estabelecidas pelas comunidades. 

Segundo a pesquisadora, essa discussão também está relacionada a um processo histórico de marginalização de pessoas que não correspondem a determinados padrões sociais. No caso do autismo, concepções associadas ao isolamento, à medicalização e à necessidade de adequação do comportamento podem permanecer presentes em diferentes contextos, inclusive nos espaços religiosos. 

Quando o ambiente se torna uma barreira 

Ruídos, iluminação intensa e outros estímulos sensoriais podem provocar sobrecarga para algumas pessoas autistas. Quando essas características não são consideradas, a participação pode se tornar mais difícil e contribuir para o afastamento da comunidade. 

O padre Rodrigo Trindade, que recebeu diagnóstico de autismo na vida adulta, relatou situações envolvendo crianças autistas durante as missas que celebra. Para ele, as celebrações, assim como outros ambientes sociais, nem sempre são pensadas considerando diferentes formas de percepção e interação. 

“Eu sei que a missa, assim como o mundo, não foi feita para elas, o mundo não foi feito para os autistas. O mundo foi feito para os neurotípicos”, afirmou. 

A situação também envolve a forma como comportamentos são interpretados. Pe. Rodrigo contou que algumas crianças brincam durante as missas e que procura não repreendê-las. O relato levanta a discussão sobre a diferença entre exigir determinado comportamento e compreender as características de quem participa da celebração. 

Comunicação e reconhecimento 

As barreiras podem aparecer ainda de maneira menos perceptível. Pe. Rodrigo relatou situações em que tem dificuldade para comunicar uma necessidade durante a celebração. Em um dos exemplos, contou que, quando um coroinha leva o livro utilizado na leitura na posição errada, nem sempre consegue pedir que ele seja reposicionado. Nesses casos, tenta continuar a leitura mesmo com o livro invertido. 

O diagnóstico também aparece em sua experiência como uma questão de reconhecimento. Recebido na vida adulta, após acompanhamento psicológico e avaliação neuropsicológica, o diagnóstico foi acompanhado, segundo seu relato, por questionamentos sobre sua validade e sobre a necessidade de comprovar a condição. 

“A gente tem que aguentar que digam que se vai atrás de regalias e benesses, atrás de laudo fácil. Machuca isso”, afirmou. 

Para Kátia Diniz, situações como essa mostram que as barreiras enfrentadas por pessoas autistas não estão restritas ao ambiente físico. O reconhecimento das necessidades individuais também depende da compreensão sobre diferentes formas de comunicação e manifestação da neurodivergência. 

O “espectrocídio religioso” 

Em sua reflexão, Kátia Diniz utiliza o conceito de “espectrocídio”, criado em 2024 pelo pesquisador Rodrigo Freitas, da Universidade Metodista de São Paulo. O termo é utilizado para discutir formas de violência simbólica relacionadas ao apagamento, ao silenciamento e à tentativa de correção da subjetividade autística. 

A partir desse conceito, a pesquisadora aborda a possibilidade de um “espectrocídio religioso”, relacionado a situações em que determinadas práticas ou interpretações estabelecem padrões sobre como uma pessoa deve se comportar ou expressar sua espiritualidade. 

Nessas circunstâncias, a pessoa autista pode ser levada a esconder características de sua neurodivergência para se adequar à comunidade. A reflexão também aborda situações em que características do autismo podem receber interpretações místicas ou demonizadas ou ser tratadas como algo que deveria ser curado pela fé. 

Participação para além da presença 

A discussão considera que estar fisicamente em uma comunidade religiosa não significa, necessariamente, conseguir participar das atividades em condições adequadas. Comunicação, estímulos sensoriais, compreensão dos comportamentos e reconhecimento das necessidades individuais também fazem parte dessa participação. 

Pessoas autistas podem estabelecer vínculos, desenvolver crenças e atribuir significados às experiências religiosas. Nesse contexto, a reflexão de Kátia Diniz e os relatos de Pe. Rodrigo Trindade apresentam diferentes situações que podem interferir na participação religiosa, desde características do ambiente até dificuldades de comunicação e reconhecimento da condição autista. 

Fonte

O presente conteúdo foi amplamente adaptado para a Linguagem Simples por GRALHA, inteligência artificial criada por Marcia Ditzel Goulart, com base na notícia de G1 PB e na contribuição de Kátia Diniz – doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da UFPB e integrante do Coletivo Autista da UFPB. A versão completa está disponível no site do Coletivo.