Inclusão e acessibilidade para docentes autistas

A construção de ambientes universitários mais acessíveis envolve o reconhecimento das diferentes formas de funcionamento humano e a adoção de medidas que favoreçam a participação e a permanência de todas as pessoas. No Departamento de Artes Cênicas (DAC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), um conjunto de adaptações foi implementado para atender às necessidades de uma docente autista, em diálogo com a professora e com base nas recomendações do Comitê de Inclusão e Acessibilidade (CIA/UFPB).
Entre as medidas adotadas estão a reorganização da distribuição das atividades de ensino, concentrando as aulas em dois dias da semana; a possibilidade de participação em reuniões departamentais por telefone em situações de sobrecarga; a criação de um grupo oficial de comunicação institucional; a adequação das atribuições desenvolvidas pela docente; a disponibilização de outro espaço para aulas durante obras no departamento; o afastamento de atividades que exigiam respostas imediatas; a oferta de uma disciplina como curso de extensão on-line; a criação de uma sala de autorregulação destinada às pessoas neurodivergentes; e a instalação de placas de sinalização para reduzir interrupções durante as aulas.
Também foi elaborada uma proposta de disciplina optativa on-line para o curso de Licenciatura em Dança, que não foi implementada em razão de limitações institucionais.
As iniciativas buscam contribuir para um ambiente acadêmico mais acessível e acolhedor, em consonância com os princípios da educação inclusiva e com o direito à acessibilidade.
Adaptações favorecem a permanência
As adaptações razoáveis são instrumentos previstos na legislação para garantir igualdade de condições às pessoas com deficiência, incluindo pessoas autistas. No ambiente de trabalho, essas medidas podem reduzir barreiras, favorecer a permanência e ampliar as condições para o desenvolvimento das atividades profissionais.
Integrante do Coletivo Autista da UFPB relata que a falta de compreensão sobre essas adaptações ainda faz parte da realidade de muitas pessoas autistas.
“A gente sempre nota os olhares de julgamento, como se estivéssemos nos aproveitando ou fôssemos exigentes demais, como se quiséssemos levar vantagem em tudo.”
Relatos de docentes
Professores autistas também descrevem desafios relacionados às condições de trabalho e aos impactos provocados pela ausência de adaptações.
Um docente da rede pública, com 28 anos de experiência, afirma que fatores como salas de aula superlotadas, excesso de ruído, imprevisibilidade das atividades e sobrecarga administrativa interferem diretamente em sua saúde e em sua atuação profissional.
“Sou professor há vinte e oito anos. Não há nada que goste mais do que dar aulas. […] Uma pessoa na minha condição precisa de pausas, espaços para se recompor de um mundo que não foi feito para eu existir. Hoje, depois do meu diagnóstico, entendo que não era preguiça, como diziam, é um funcionamento neurobiológico atípico.”
Outro professor relata que uma crise sensorial interrompeu uma aula e destaca que pequenas adaptações poderiam evitar situações semelhantes.
“Todos os alunos começaram a falar ao mesmo tempo. Minha cabeça começou a girar, tive tontura e precisei encerrar a aula. Se houvesse uma sala de autorregulação na escola, eu poderia me recuperar e voltar para a atividade. Também precisei substituir as lâmpadas da sala por uma iluminação mais adequada para reduzir a sobrecarga sensorial.”
Inclusão é construída no cotidiano
A promoção da acessibilidade envolve reconhecer que diferentes pessoas podem necessitar de diferentes condições para exercer suas atividades em igualdade de oportunidades. Nesse contexto, adaptações razoáveis contribuem para ambientes acadêmicos e profissionais mais acessíveis, favorecendo o bem-estar, a participação e a permanência de pessoas autistas.
Conhecer experiências, compartilhar boas práticas e ampliar o diálogo sobre inclusão são caminhos para fortalecer ambientes educacionais mais acessíveis e respeitosos à diversidade humana.
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